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Depoimentos na ‘CP do Lixo’: Cristiano Zamboni afirma que ele e prefeita não tinham conhecimento técnico para avaliar impugnações e pareceres da Fipe

Na manhã desta quarta-feira (28/10), a Comissão Processante (CP) do Lixo se reuniu para ouvir o depoimento das testemunhas de acusação no processo que apura se a prefeita Suéllen Rosim (PSD) cometeu três infrações político-administrativas na condução da concessão dos serviços de resíduos sólidos de Bauru (processo n.º 225/2026). O primeiro depoente foi o secretário municipal de Administração, Cristiano Ricardo Zamboni.

A partir de junho de 2026, o secretário ocupou a função de presidente da Comissão de Contratação da Concessão do Lixo, constituída para receber, encaminhar e julgar a documentação e as propostas dos participantes do certame.

Durante o depoimento, o vereador Eduardo Borgo (Novo), autor da denúncia que deu origem à CP do Lixo, procurou esclarecer qual papel Zamboni desempenhou frente às impugnações ao edital. Fatos que precederam a deflagração da Operação Cavalo de Troia, que resultou na prisão dos ex-secretários Cilene Chabuh Bordezan, Vitor João de Freitas Costa e Renato Purini.

Contratação da Fipe


A testemunha explicou, inicialmente, que a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) foi contratada para prestar consultoria à Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Bem-Estar Animal na elaboração do projeto de manejo dos resíduos sólidos de Bauru e, posteriormente, para dar apoio técnico ao processo licitatório.

No segundo caso, cabia à fundação auxiliar a Comissão de Contratação da Concessão do Lixo na elaboração de respostas às eventuais impugnações ao edital e aos recursos apresentados pelos licitantes.

Com isso, Zamboni explicou que mantinha contato regular com Mário Luiz Silvério, consultor e técnico ligado a Fipe investigado na Operação Cavalo de Troia, pois ele era o representante da fundação. As conversas ocorriam por e-mail e WhatsApp, de acordo com ele.

Impugnações e atuação da prefeita

Um dos pedidos de impugnação ao edital foi feito pelo especialista ambiental Ricardo Crepaldi, em agosto. De caráter administrativo, ela foi encaminhada à Prefeitura.

Zamboni relatou que o pedido chegou no e-mail da Comissão de Contratação de Concessão do Lixo em um domingo. No dia seguinte, comunicou a prefeita Suéllen Rosim (PSD) sobre o recurso, avisando-a que iria encaminhá-lo ao consultor da Fipe.

Após o consultor elaborar a resposta, que não acatou os apontamentos de Crepaldi, Zamboni disse que encaminhou o documento por WhatsApp para Elisangela Cardoso do Prado Pereira, assessora direta da prefeita, e telefonou para a chefe do Executivo Municipal para informá-la sobre o envio.

Antes disso, no entanto, ele avaliou o parecer elaborado por Mário Silvério. Nenhuma alteração significativa foi feita no texto. De acordo com Zamboni, ele apenas acrescentou na redação que a manifestação final dele estava sendo feita em cima do parecer técnico da FIPE. E isso também foi informado à prefeita.

Após Suéllen assinar o documento e recebê-lo através de Elisângela, Zamboni alegou que publicou o documento no site da Prefeitura de Bauru e encaminhou a resposta a Crepaldi.

Borgo indagou Zamboni em mais de uma ocasião sobre sua capacidade e da prefeita para avaliar tecnicamente o parecer da Fipe. A testemunha afirmou que foi justamente a falta de conhecimento sobre o objeto da concessão (a gestão dos resíduos sólidos) que levou à contratação da fundação. Logo, tanto ele como a prefeita seguiam rigorosamente o que o consultor indicava.

Borgo perguntou se ele não percebeu que existiam irregularidades no edital. Zamboni afirmou que não e acrescentou: “Eu concordei integralmente com o parecer da Fipe”.

Novas representações de Ricardo Crepaldi e do vereador Márcio Teixeira (PL) apresentadas ao Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) motivaram uma liminar do conselheiro Wagner de Campos Rosário que suspendeu pela segunda vez o processo licitatório em agosto.

Neste caso, Zamboni ficou sabendo da impugnação após receber um e-mail do TCE-SP. Ele relatou que comunicou a prefeita por telefone e acionou Mário Silvério para responder aos apontamentos técnicos feitos pelo órgão.

Após a devolutiva do consultor, a testemunha disse que assinou o documento que seria encaminhado ao Tribunal de Contas e deu ciência dele à prefeita antes de encaminhar a resposta ao TCE-SP. Desta vez, o posicionamento da Fipe mudou, reconhecendo os problemas listados pelo órgão de controle.

Logo depois foi deflagrada a Operação Cavalo de Tróia e o edital foi suspenso definitivamente.

Indagado por Borgo, Cristiano Zamboni indicou que não conseguiu perceber a gravidade dos apontamentos a partir do parecer da Fipe, pois ele era extremamente técnico. A constatação veio apenas com a manifestação do Tribunal de Contas, segundo ele.

Zamboni ainda teve dificuldade para precisar a cronologia entre o acionamento da Fipe perante as impugnações e os encaminhamentos feitos à prefeita Suéllen Rosim. Situação que levou Borgo a indagar a Procuradoria Legislativa da Câmara, perguntando se a testemunha poderia ser presa em caso de falso testemunho.

Jeferson Daniel Machado, advogado da prefeita Suéllen Rosim (PSD), apontou ao presidente do colegiado, o vereador Miltinho Sardin (PSD), que Borgo estava coagindo a testemunha. Se seguiu um embate entre o advogado e o denunciante, o que levou à suspensão da reunião temporariamente.

Cilene, Estre e Purini

Eduardo Borgo também fez questionamentos acerca da interferência de Cilene Chabuh Bordezan e Renato Purini nas respostas elaboradas pela Fipe para as impugnações. Zamboni afirmou que não falou com eles sobre o assunto.

Em resposta ao relator da CP do Lixo, Junior Lokadora (Podemos), a testemunha também afirmou que não sabe se Bordezan participou da elaboração dos estudos que embasaram o edital da concessão.

Zamboni ainda alegou que não conhece Hamilton Libório Agle, ex-CEO da Estre Ambiental preso na Operação Cavalo de Troia. Nem Gisele Moretti, presidente afastada da Ascam (Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Bauru e Região) e investigada na Operação Mobius.

Indagação da defesa

Advogado da prefeita Suéllen Rosim (PSD), Jeferson Daniel Machado abordou a motivação por trás da contratação da Fipe e a relação que Zamboni mantinha com Mário Silvério.

A testemunha afirmou que, pela complexidade do processo licitatório, entende que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente decidiu firmar contrato com a fundação para ter o apoio técnico necessário na elaboração do edital.

Sobre a relação que manteve com Mário Silvério, Zamboni apontou que ela se restringiu à esfera institucional, uma vez que ele era o representante da Fipe.

O advogado também explorou a atuação da prefeita no processo licitatório, indagando à testemunha se percebeu alguma atitude ou decisão suspeita por parte de Suéllen Rosim.

Zamboni respondeu que não e reiterou que, assim como ele, a prefeita seguia os pareceres da Fipe. “Nem eu, nem ela teríamos capacidade técnica de avaliar”, disse, alegando em seguida que também não percebeu condutas irregulares de Silvério.

Depoimentos desta quarta-feira (28/10)

Além de Ricardo Crepaldi, a ‘CP do Lixo’ ouviu cinco depoentes ao longo desta quarta-feira. Você pode conferir a cobertura de cada um deles nos links abaixo:

Cristiano Ricardo Zamboni, secretário municipal de Administração

Elton Johnny Petini, gerente de Licitações e Contratos da Prefeitura de Bauru

Guilherme Rodrigues de Melo, agente social da Prefeitura de Bauru

Gisele Moretti, presidente afastada da Ascam e investigada na Operação Mobius

Outras testemunhas

Por decisão da Comissão, as gravações com a íntegra dessa fase dos trabalhos serão disponibilizadas no canal da TV Câmara no YouTube somente após o encerramento da fase de oitivas, a fim de que não sejam prejudicados os depoimentos subsequentes.

Ainda não há data definida para a próxima reunião destinada aos depoimentos, mas já estão em andamento os trâmites para a oitiva das demais cinco testemunhas de acusação arroladas pela denúncia. Quatro delas estão presas preventivamente no âmbito da Operação “Cavalo de Troia”: Cilene Chabuh Bordezan, Sara Moura de Jesus, Vitor João de Freitas Costa e Hamilton Libório Agle.

Na reunião desta quarta-feira (28/10), a CP aprovou requerimento apresentado pelo denunciante, vereador Eduardo Borgo (Novo), para substituir uma das testemunhas. Borgo abriu mão da oitiva do consultor da Fipe Mário Luiz Silvério, que teve a prisão preventiva decretada e permanece foragido da Justiça. Em seu lugar, será chamado a depor o servidor municipal Sidnei Rodrigues, atualmente vinculado à Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento, mas que já atuou como secretário municipal do Meio Ambiente.

Reprodução: Câmara Municipal de Bauru

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