Depoimentos na ‘CP do Lixo’: ex-assessor de gabinete de Cilene Bordezan diz que Fipe foi contratada somente para validar edital elaborado pela ex-secretária do Meio Ambiente
Nesta quarta-feira (28/10), a Comissão Processante (CP) do Lixo se reuniu para ouvir o depoimento das testemunhas de acusação no processo que apura se a prefeita Suéllen Rosim (PSD) incorreu em três infrações político-administrativas na condução da concessão dos serviços de resíduos sólidos de Bauru (processo n.º 225/2026).
O quarto depoente do dia foi Guilherme Rodrigues de Melo, agente social da Prefeitura de Bauru que atuou como Assessor de Gabinete I de Cilene Bordezan na Secretaria de Meio Ambiente. Atualmente ele está afastado de suas atividades funcionais por conta de problemas de saúde (Síndrome do Pânico).
Em seu depoimento, ele relatou diversas conversas e falas que afirmou ouvir, tanto de corredores na Prefeitura quanto de Cilene, ex-secretária de Meio Ambiente presa na Operação Cavalo de Troia, e Gisele Moretti, presidente afastada da Ascan – Associação de Catadores de Reciclagem de Bauru.
Relações com Cilene Bordezan e Gisele Moretti
Em resposta principalmente a questionamentos do vereador Eduardo Borgo (Novo), autor da denúncia que deu origem à CP do Lixo, Guilherme afirmou que conheceu Cilene Bordezan no dia em que ela foi apresentada pela prefeita Suéllen Rosim como a nova secretária de Meio Ambiente a todos os servidores da pasta.
Cerca de um mês depois, o depoente, até então no cargo de agente social, foi nomeado Assessor de Gabinete I de Cilene. No cargo, era responsável pela agenda da secretária e por acompanhá-la em algumas reuniões e visitas protocolares. Em agosto de 2025, foi transferido para a Secretaria de Habitação a pedido da Administração Municipal, sem saber os motivos alegados.
Guilherme também confirmou que é amigo pessoal de Gisele Moretti e que foi o responsável pela aproximação entre ela e Cilene. Segundo relatou, percebeu que ambas haviam assuntos convergentes: ele tinha ouvido da própria Cilene que ela havia vindo a Bauru especificamente para cuidar da concessão do lixo e que o projeto iria englobar as cooperativas; Gisele, por sua vez, criou e estruturou a Ascan. “Na mesma hora me veio a intenção de apresentá-las pelo interesse da cidade de Bauru”, disse.
Relato de falas e conversas
No depoimento, Guilherme trouxe relatos de conversas que presenciou durante o período em que esteve como Assessor de Gabinete I. Em uma delas, após longa reunião entre Cilene e Gisele, ouviu de Cilene que ela aguardava o retorno da prefeita Suéllen Rosim para dar andamento ao edital de concessão do lixo. Em outra, Cilene contou que Gisele a cobrava para garantir que as cooperativas estivessem, de fato, incluídas no edital.
Ele declarou que Cilene contou que ela própria elaborou as cláusulas do edital, juntamente com a ex-secretária adjunta de Meio Ambiente, Sara Moura, e uma equipe do Estado de São Paulo, a qual ele nunca teve acesso. Nesse cenário, a Fipe teria sido contratada somente para validar os estudos técnicos já previamente elaborados pelo time de Cilene.
No entanto, o depoente ressaltou que não participava de todas as reuniões – segundo ele, Cilene conversava por telefone com Suéllen “a portas fechadas” – nem teve acesso a nenhuma minuta, documento ou projeto, repassando somente o que ouviu da então secretária. “Ela nunca me abriu nada além do que estava aberto para outras pessoas”, pontuou.
Negativas e desconhecimento
Guilherme ainda negou ou disse não poder opinar sobre alguns pontos levantados por Eduardo Borgo.
Ele alegou não saber das ligações de Cilene e Sara com a Estre, empresa que teria supostamente sido beneficiada com o direcionamento do edital de concessão; e disse ter visto Hamilton Agle, ex-dirigente da empresa e agora investigado na Operação Cavalo de Troia, apenas uma vez durante uma visita ao aterro sanitário. Esta teria sido a única ocasião em que Hamilton apareceu na agenda oficial da ex-secretária.
Ele chegou a ouvir, tanto de Cilene quanto de Gisele, que uma vez que o aterro sanitário mais próximo de Bauru pertencia à Estre, o custeio do transporte dos resíduos sólidos ficaria mais barato neste caso. Porém, nenhuma delas disse que a Estre seria a empresa ganhadora do edital por esse ou qualquer outro motivo. O depoente alegou ter conhecimento, inclusive, que Gisele fez uma denúncia de irregularidades no certame ao Ministério Público, mas que desconhece o inteiro teor do que foi denunciado e o andamento do processo.
Guilherme também não soube falar do que a prefeita Suéllen Rosim tinha ciência em toda essa situação: “nunca tive reunião com ela a respeito disso”, afirmou, complementando em um questionamento de Junior Lokadora (Podemos) que Cilene tinha “carta branca” na pasta. Ele reforçou que tampouco tinha ciência de nenhuma irregularidade, pois quando saiu da Secretaria do Meio Ambiente a concessão sequer havia sido votada na Câmara.
Quanto à Câmara, o que sabe Guilherme ouviu de Gisele: os vereadores que concordavam com a concessão estavam tentando convencer os que não concordavam. Sem citar nomes, ressaltou que nunca escutou nada sobre pressão ou vantagem indevida para a aprovação da proposta.
Depoimentos desta quarta-feira (28/10)
Além de Guilherme Rodrigues de Melo, a ‘CP do Lixo’ ouviu cinco depoentes ao longo desta quarta-feira. Você pode conferir a cobertura de cada um deles nos links abaixo:
Cristiano Ricardo Zamboni, secretário municipal de Administração
Ricardo Crepaldi, ex-presidente do Conselho Municipal de Meio Ambiente e autor de denúncia apresentada ao Tribunal de Contas (TCE-SP) sobre a concessão
Elton Johnny Petini, gerente de Licitações e Contratos da Prefeitura de Bauru
Gisele Moretti, presidente afastada da Ascam e investigada na Operação Mobius
Outras testemunhas
Por decisão da Comissão, as gravações com a íntegra dessa fase dos trabalhos serão disponibilizadas no canal da TV Câmara no YouTube somente após o encerramento da fase de oitivas, a fim de que não sejam prejudicados os depoimentos subsequentes.
Ainda não há data definida para a próxima reunião destinada aos depoimentos, mas já estão em andamento os trâmites para a oitiva das demais cinco testemunhas de acusação arroladas pela denúncia. Quatro delas estão presas preventivamente no âmbito da Operação “Cavalo de Troia”: Cilene Chabuh Bordezan, Sara Moura de Jesus, Vitor João de Freitas Costa e Hamilton Libório Agle.
Na reunião desta quarta-feira (28/10), a CP aprovou requerimento apresentado pelo denunciante, vereador Eduardo Borgo (Novo), para substituir uma das testemunhas. Borgo abriu mão da oitiva do consultor da Fipe Mário Luiz Silvério, que teve a prisão preventiva decretada e permanece foragido da Justiça. Em seu lugar, será chamado a depor o servidor municipal Sidnei Rodrigues, atualmente vinculado à Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento, mas que já atuou como secretário municipal do Meio Ambiente.
Reprodução: Câmara Municipal de Bauru


