Carregando agora
×

Prevenção é foco de encontro sobre segurança de mulheres motoristas de aplicativo

Identificar sinais de risco antes do embarque, abrir mão de uma corrida quando as condições provocarem insegurança, evitar confrontos e acionar o 190 diante de uma situação que exija intervenção policial. Essas foram algumas das principais orientações levadas às mulheres motoristas de aplicativo durante encontro realizado nesta sexta-feira (23/10), na Câmara Municipal de Bauru.

A atividade foi idealizada pelo presidente da Casa, Markinho Souza (MDB), e reuniu profissionais que trabalham nas plataformas com representantes da Polícia Militar. O encontro também contou com a participação do vice-presidente da Câmara e presidente da Comissão de Segurança Pública, Cabo Helinho (PL), policial militar da reserva, e de Elisa Rocha Caminaga, especialista em defesa pessoal, faixa-preta de judô e fundadora da Associação de Artes Marciais Caminaga.

A discussão ganhou urgência após a morte da motorista de aplicativo Pâmela Letícia Nolastro Cunha, encontrada no início deste mês em uma área rural de Piratininga (SP).

O caso mobilizou profissionais da região e ampliou a preocupação sobre os riscos enfrentados durante as corridas, especialmente entre as mulheres. A proposta da reunião, no entanto, foi concentrar o debate em prevenção e nas formas de buscar ajuda diante de situações de ameaça.

Daniele Branco, que trabalha como motorista de aplicativo e, em 2018, mobilizou um grupo de apoio e troca de informações entre mulheres da categoria, relatou que as profissionais já haviam procurado anteriormente espaços para discutir segurança e destacou como positiva a abertura do diálogo com a Polícia Militar por meio do Poder Legislativo.

Percebeu o risco? A orientação é não evitar a corrida

Durante a reunião, diferentes motoristas relataram situações em que o passageiro encontrado no ponto de embarque não correspondia ao perfil que havia solicitado a corrida. Houve casos de chamadas feitas em nome de mulheres nas quais, ao chegar ao endereço indicado, as profissionais encontraram um ou mais homens.

Outros relatos envolveram endereços pouco iluminados ou isolados, passageiros que pediram para que as motoristas aguardassem enquanto buscavam drogas e corridas nas quais o local informado pelo aplicativo não permitia identificar previamente as condições da região. Uma profissional que começou a trabalhar há poucas semanas contou que, ao se aproximar de um endereço no início da noite, percebeu dois homens saindo de uma área de mata e decidiu deixar o local.

Para o comandante da Companhia de Força Tática do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior, capitão PM Pires, a percepção da própria motorista deve ser levada em consideração antes mesmo do embarque. A prioridade, segundo o policial, deve ser a prevenção. “É melhor perder a corrida do que passar por uma situação de risco”, resumiu.

Em situação de emergência, o caminho é o 190

O acionamento da Polícia Militar também foi reforçado ao longo do encontro. Em situações de crime, ameaça ou risco que demandem intervenção policial, a orientação é recorrer ao telefone 190.

Pires recomendou ainda que as profissionais conheçam a localização das bases policiais nas regiões em que costumam trabalhar. Caso estejam em deslocamento e precisem chamar a atenção de uma viatura, sinais luminosos também podem ser utilizados para tentar estabelecer contato com os policiais.

O assunto ganhou destaque quando as participantes perguntaram sobre os chamados “botões de pânico” e outras ferramentas de emergência disponíveis nas plataformas. De acordo com o capitão, esses recursos não possuem conexão direta com o Copom de Bauru.

As motoristas defenderam que essa comunicação seja aprimorada. Uma delas questionou a efetividade de uma ferramenta que dependa exclusivamente do celular, já que, em uma abordagem criminosa, o aparelho pode ser retirado da vítima logo nos primeiros momentos.

Pires avaliou que é necessário avançar na integração dos mecanismos de segurança oferecidos pelas plataformas com os canais de atendimento das forças policiais.

Para o presidente da Câmara, Markinho Souza, esse é um ponto que mostra a necessidade de que o encontro de hoje tenha desdobramentos, mobilizando, inclusive, tratativas com as as plataformas e com o Governo do Estado por meio da Secretaria de Segurança Pública. “É um grande trabalho, mas não é impossível”.

Evitar reação e conhecer o veículo

Outro ponto repetido durante a conversa foi a recomendação para que as motoristas evitem reagir quando o objetivo do criminoso for levar o carro, o telefone ou outros bens.

Uma das participantes, que trabalha há oito anos com aplicativos, relatou um assalto sofrido há alguns anos, quando foi colocada no porta-malas do próprio veículo. Ela conseguiu sair e sobreviver à ocorrência.

O relato levou a uma discussão sobre a importância de conhecer o funcionamento do próprio automóvel. Alguns modelos possuem mecanismos para abertura interna do porta-malas, mas os sistemas variam de um veículo para outro. A orientação foi para que as motoristas saibam previamente como funcionam esses recursos e onde estão localizados.

Ao comentar o episódio, Pires reforçou que o patrimônio pode ser recuperado, enquanto uma reação diante de uma arma pode colocar a vítima em situação ainda mais grave. “A segurança do motorista não pode depender da capacidade de reação de cada um”, afirmou.

Cabo Helinho seguiu a mesma linha. Para o vereador, instrumentos de defesa não devem criar uma falsa sensação de segurança nem estimular o enfrentamento. Ele lembrou que até profissionais da segurança passam por treinamento específico para reagir diante de ameaças e defendeu que qualquer recurso dessa natureza seja utilizado com conhecimento de suas limitações.

Defesa pessoal como recurso para criar oportunidade de fuga

O tema também foi abordado por Elisa Rocha Caminaga, especialista em defesa pessoal e fundadora da Associação de Artes Marciais Caminaga. Ex-atleta da Seleção Brasileira de Judô, Elisa trabalha atualmente com formação em artes marciais e projetos esportivos em Bauru.

Ela concordou que, diante de uma situação envolvendo apenas perda material, a prioridade deve ser evitar o confronto. Nos casos em que a integridade física esteja diretamente ameaçada e não seja possível escapar, destacou que treinamento em defesa pessoal pode oferecer ferramentas adicionais, principalmente para criar uma oportunidade de fuga.

Elisa também chamou atenção para medidas anteriores ao confronto. Manter a percepção sobre o ambiente, por exemplo, pode fazer diferença: o uso de fones de ouvido ou outras situações que dificultem perceber a aproximação de alguém reduzem a capacidade de antecipar uma abordagem.

“Tudo o que estiver à nossa mão é evitar o alcance”, resumiu. Para ela, buscar uma arte marcial ou treinamento específico pode ampliar o repertório de proteção, mas não elimina a diferença física nem garante que uma agressão possa ser neutralizada.

Spray de defesa pessoal entrou no debate

As profissionais também tiraram dúvidas sobre o uso de spray de defesa pessoal e dispositivos de incapacitação.

Desde julho, a Lei Federal nº 15.474/2026 autoriza a aquisição e a posse, por mulheres maiores de 18 anos, de aerossóis de extratos vegetais destinados à defesa pessoal, observadas as condições estabelecidas pela legislação. A norma prevê o uso para contenção temporária de agressor diante de agressão atual ou iminente à integridade física ou sexual.

Pires e Helinho, porém, fizeram ressalvas durante o encontro. Dentro de um veículo, por exemplo, o spray pode atingir também a própria motorista. O vento e a distância entre agressor e vítima são outros fatores que interferem na utilização.

A orientação foi para que eventual posse desses recursos venha acompanhada de conhecimento sobre funcionamento e limitações. Nos casos extremos em que uma agressão física já esteja em curso, os participantes discutiram esses instrumentos como possibilidades para abrir uma oportunidade de fuga, e não como incentivo ao confronto.

Markinho ressaltou esse cuidado ao longo da reunião. Segundo ele, o debate sobre ferramentas de defesa não poderia transmitir a mensagem de que as motoristas deveriam reagir indiscriminadamente a abordagens criminosas.

Câmeras, pagamentos e comunicação com familiares

Parte das medidas que reduzem riscos discutidas no encontro já faz parte da rotina de algumas profissionais.

Uma motorista contou que instalou uma câmera no carro e transfere periodicamente as imagens para um dispositivo externo. Outra relatou que, quando percebe algum comportamento incomum, faz uma chamada para o irmão, com quem combinou previamente uma série de perguntas. A conversa funciona como uma forma de demonstrar que outra pessoa sabe onde ela está e acompanha a viagem.

Markinho também sugeriu que as motoristas avaliem a possibilidade de selecionar corridas com pagamento registrado pelo aplicativo, como cartão ou Pix antecipado, evitando dinheiro ou cobranças posteriores. Algumas participantes disseram que adotaram esse filtro recentemente, embora tenham observado redução inicial no número de chamadas.

Também houve orientação para evitar, sempre que possível, corridas combinadas fora das plataformas. Além da questão de segurança, as profissionais destacaram que o aplicativo mantém registros da solicitação, do passageiro e do trajeto, informações que deixam de existir em uma viagem realizada de maneira informal.

Campanha pode aproximar passageiras e motoristas mulheres

A reunião também abriu espaço para discutir uma proposta apresentada por Markinho: incentivar mulheres passageiras a utilizarem, quando disponível na plataforma, a opção de viajar com motoristas mulheres.

A ideia seria acompanhada por uma campanha de conscientização, de forma a ampliar a procura e reduzir o impacto financeiro para as profissionais que optam por atender exclusivamente o público feminino.

Algumas trabalhadoras ponderaram, porém, que selecionar apenas passageiras reduz o volume de chamadas, principalmente no início. Também observaram que o filtro não elimina completamente o risco, já que uma conta feminina pode ser utilizada para solicitar uma corrida destinada a um homem.

Esse foi, inclusive, um dos pedidos das profissionais para uma eventual campanha: orientar os usuários a não solicitar viagens para terceiros utilizando perfis que façam a motorista acreditar que encontrará outra pessoa no embarque.

Troca de informações deve continuar

Ao final do encontro, a Polícia Militar reforçou o compromisso com a prevenção e o combate aos crimes e avaliou que a aproximação com as profissionais ajuda as forças de segurança a conhecer melhor as situações encontradas durante o trabalho.

Para Markinho, os relatos demonstraram que a preocupação não se limita às ocorrências mais graves. Discussões com passageiros, divergências sobre pagamento, corridas para endereços desconhecidos e comportamentos incomuns dentro do veículo podem evoluir para situações de maior risco e exigem atenção.

O presidente da Câmara também colocou a equipe jurídica de seu gabinete à disposição da família de Pâmela para eventual orientação relacionada ao caso.

A expectativa manifestada pelas participantes é de que o encontro não encerre o diálogo. Para as motoristas, a troca de informações entre as próprias trabalhadoras, a aproximação com a Polícia Militar e o aprimoramento dos mecanismos oferecidos pelos aplicativos são frentes que precisam avançar em conjunto.

Reprodução: Câmara Municipal de Bauru

Vagas de Emprego